190|Argentina: O que virá agora?

Xico Lopes on 22/07/2008

Xico_Lopes Mais uma vez a Argentina está frente a uma encruzilhada. O fantasma de Perón paira inamovível do cenário argentino. A sociedade não sabe (ou não quer…) exorcizá-lo. O fato é que desde que Perón morreu, a Argentina está caminhando a esmo. Os indicadores sociais, ano após ano, vão se deteriorando. O país que já foi a referência latino-americana, perdeu ele mesmo os seus referenciais. O que virá agora? É a pergunta que o Vitor Gomes Pinto faz neste seu artigo, acompanhem:

 

190bandeira-argentina3

A grande dúvida de hoje na Argentina é se ela saberá aproveitar a oportunidade ou se seus políticos conseguirão afundá-la uma vez mais.

Os altos preços alcançados pelos principais produtos nacionais, a crescente demanda internacional por alimentos e petróleo, o crescimento do PIB superior a 9% no ano dão esperanças de retorno à "belle époque", na virada do século XIX para o XX, quando o modelo agroexportador se consagrou.

A Argentina é o 2º exportador mundial de milho, cujos preços aumentaram 90% este ano; é 3ª na soja, que subiu 73%; e 4ª em trigo, que subiu 74%. Não obstante, o seguro anti-calote sobre os bônus emitidos pelo governo é de 5%, contra 0,45% dos papéis brasileiros e peruanos, indicando uma forte desconfiança dos investidores e do mercado quanto à seriedade da administração de Cristina Kirchner.

Até 11 de março, o governo argentino tributava em 35% o valor das exportações de soja e um pouco menos do girassol, trigo e milho. Os agricultores havia muito não ganhavam tanto dinheiro e, quando veio o pacote governamental impondo um sistema de taxação progressiva sobre esses quatro produtos agrícolas com um gatilho para acompanhar oscilações do mercado (em alguns casos o imposto subiria a 90%), enfureceram-se e decidiram resistir cortando a produção, desabastecendo os supermercados, bloqueando estradas.

O casal Kirchner partiu então para a guerra aberta contra os ruralistas, acusando-os despropositadamente de fascistas e colocando nas ruas os piqueteiros peronistas. A batalha durou 128 dias e terminou em 17 de julho com a humilhante derrota de Néstor e Cristina, que viram seu sonho de dirigir a nação ao menos por 16 anos ruir ou transformar-se numa longínqua possibilidade.

Às 4 da madrugada, o senador radical Emilio Rached, de Santiago del Estero, com quem o governo contava, disse "não" e empatou a votação no Senado em 36 x 36. Então aconteceu o que parecia impossível: provando que vices não merecem confiança, Julio Cézar Cobos, um ex-radical que Cristina aceitou a contragosto como companheiro de chapa, demorou meia hora e afinal como presidente da Casa derrubou o projeto com seu voto de minerva.

De maneira simplificada, venceu o modelo agroexportador e perdeu o neodesenvolvimentismo industrial. Acusada de arrogante e autoritária, como o marido, mas acima de tudo inábil e sem liderança efetiva, Cristina Kirchner, que viu seu apoio popular baixar de 56% em dezembro para os atuais 20%, esteve à beira da renúncia, decidindo por fim continuar mesmo com minoria parlamentar nos três anos e meio que lhe restam de mandato.

Os argentinos choraram de alegria e de saudade do caudilho Juan Domingo Perón, lembrando seu primeiro governo de 1946 a 1950, quando liderou o Justicialismo no último período de riqueza e progresso conhecido pelo país. Depois vieram a crise econômica interminável, a submissão ao FMI e aos seus planos de estabilização, os golpes militares, os anos de chumbo de Videla e companhia, a desindustrialização comandada pelo ministro Martínez de Hoz, o general Galtieri invadindo as Malvinas e perdendo a guerra para os ingleses, a hiperinflação que Raúl Alfonsín não conseguiu controlar, os dez anos de neoliberalismo de Carlos Menem e a paridade entre peso e dólar, a queda de De La Rúa, a moratória da dívida externa decretada em dezembro de 2001 por Adolfo Rodríguez Saa nos 11 dias em que foi presidente, o calote parcial de Néstor Kirchner em 2005 e a gradativa recuperação da economia argentina.

O que virá agora? A idéia de que a Argentina volte a inserir-se no mundo como um grande exportador de bens primários agrícolas e pastoris e importador de bens de capital e manufaturados reúne temporariamente num mesmo bloco a ultraconservadores do campo e grupos de intelectuais e políticos de centro-esquerda, mas a indústria, que tem gerado mais empregos e que apesar das marés contrárias já responde por 35% do PIB nacional, não cederá com facilidade o espaço duramente conquistado. Os compradores de matérias-primas de hoje não são mais ingleses e sim chineses pouco preocupados com direitos trabalhistas. E Perón não pode mesmo mais voltar.

Vitor Gomes Pinto é escritor e analista internacional

Fonte: Globo Online

Subscribe to this blog's RSS feed