181|Mandela completa noventa anos e denuncia a desigualdade social no mundo
As homenagens que se fazem em honra a Mandela pelos seus 90 anos, são mais do que merecidas. Nelson Mandela, se tornou um símbolo da luta contra o racismo, o segregacionismo racial. Um homem que depois de quase tres décadas prisioneiro de um regime autoritário, sai da prisão para comandar o seu povo, o povo do seu país, para o regime democrático, caminho este feito através da conciliação e não do revanchismo. Salve Mandela! Feliz aniversário!
Nelson Mandela (imagem:http://www.globalsoulpower.com)
Nelson Mandela celebrou o seu aniversário de 90 anos com um pedido para que os ricos compartilhem sua fortuna com os mais carentes e desejando que pudesse ter passado mais tempo com sua família durante a luta contra o apartheid. Entrevistado em sua casa na região rural na África do Sul, o ícone da luta contra a segregação racial afirmou que tem muita sorte por alcançar os 90 anos, mas observou: "A pobreza deteve nosso povo. Se você for pobre, é improvável que viva tanto".
Nelson Rolihlahla Mandela foi o prisioneiro nº 46664 por 27 anos, onde viveu sob duras condições enquanto autoridades negaram qualquer pedido de liberdade, devido às suas atividades contra o apartheid - que negava aos negros, mestiços e indianos direitos políticos, sociais e econômicos - pelo Congresso Nacional Africano.
Em 1955, divulgou a Carta do Povo, documento que continha um projeto para a superação do apartheid. Até então, o líder sul-africano era contra atos violentos. Cinco anos depois, em 1960, ele decidiu pegar em armas após o massacre de Sharpeville, quando 69 manifestantes negros morreram e 180 ficaram feridos pela polícia. No ano seguinte, Mandela comandou uma campanha de sabotagem contra alvos militares e foi à Argélia receber treinamento paramilitar. Em 1962, foi preso por sabotagem e por conspirar contra a África do Sul, incentivando outras nações a invadir o país - o que Mandela nega.
Mandela saiu da prisão em 11 de fevereiro de 1990, aos 72 anos, e tornou-se presidente da África do Sul em maio de 1994. Ele comandou a transição do regime de minoria no comando, lutando pela reconciliação interna e externa de seu país. Desde que saiu da presidência, em 1999, tornou-se o mais importante embaixador da África do Sul, realizando campanhas contra a AIDS e a concentração de renda. Em 2004, decidiu retirar-se da vida pública para dedicar mais tempo à família e aos amigos.
Nesta sexta-feira (18), em uma transmissão de rádio nacional, ele contou estar honrado pelas pessoas terem escolhido comemorar o aniversário "de um velho recluso que não tem mais nenhum poder de influência".
F.W. de Klerk, que dividiu com Mandela o Nobel da Paz em 1993 afirmou ainda que "Nelson Mandela nasceu um líder, pois carrega a segurança, a humildade e a graça de um natural aristocrata. Depois de ter sido eleito, ele usou seu charme pessoal para promover a reconciliação e moldar nossas comunidades em uma nação multicultural. Isso, eu acredito, foi seu grande legado". Ele se tornou um símbolo pela liberdade e dos direitos civis.
A saúde de Mandela parece ser boa, mas ele faz cada vez menos aparições em público. Durante a entrevista aos jornalistas em sua casa, onde pretende passar o aniversário, Mandela foi presenteado com flores pela neta, que lhe deu um beijo. Nesse momento, o líder sul-africano lamentou que gostaria de ter tido mais tempo com a sua família durante o tempo da luta contra o apartheid e os anos liderando o país, "mas não me arrependo".
Na rádio oficial sul-africana, Mandela agradeceu as felicitações pelo seu aniversário recebidas do mundo todo. No país, os 90 anos de Mandela foram destaque em toda a imprensa desde o início do dia, e emissoras de rádio e televisão transmitem a todo momento mensagens de parabéns, programas comemorativos e canções dedicadas ao ex-presidente. As capas dos jornais também foram praticamente exclusivas para o aniversário, e os editoriais ressaltam sua história.
O governo parabenizou o "primeiro presidente de uma África do Sul sem discriminação por raça, por sexo e democrática". "Sua vida inspira a todos para lutar por um mundo melhor, livre da pobreza, da fome e contra toda forma de opressão da sociedade", diz uma nota difundida pelo Executivo.
Fonte: EFE, Associated Press via Estadao.com.br e SRZD
Uma breve biografia de Mandela
* PRIMEIROS ANOS — Nasceu no dia 18 de julho de 1918, filho de um conselheiro do chefe supremo do povo thembu, perto de Qunu, onde hoje fica Cabo Oriental.
* CAMPANHA CONTRA O APARTHEID — Mandela dedicou toda a sua vida a combater a segregação racial, tendo abandonado a universidade Fort Hare no começo dos anos 40, antes de se formar. Com Oliver Tambo e Walter Sisulo, fundou a Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (CNA).
Mandela passou a defender a resistência armada contra o apartheid, tendo passado para a clandestinidade em 1961 a fim de fundar o braço armado do CNA — Umkhonto we Sizwe (A Lança da Nação).
– No Julgamento de Rivonia (1963), acusado de crimes puníveis com a pena de morte, Mandela fez do banco dos réus uma declaração que entrou para a história como seu testemunho político.
"Eu estimo o ideal de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. Esse é um ideal ao qual pretendo dedicar minha vida e que pretendo alcançar. No entanto, se for preciso, esse é um ideal pelo qual estou disposto a morrer".
Mandela foi condenado à prisão perpétua em 1964.
* DA PRISÃO À PRESIDÊNCIA
Frederik Willem de Klerk, último presidente branco da África do Sul, finalmente legalizou o CNA e outros movimentos de libertação. Mandela foi solto no dia 11 de fevereiro de 1990.
Um ano mais tarde, ele foi eleito presidente do CNA e, em maio de 1994, assumiu o cargo de presidente do país, tornando-se o primeiro negro a ocupar o posto. Mandela usou seu carisma e prestígio para evitar um confronto aberto entre negros e brancos, criando a Comissão de Verdade e Reconciliação, o órgão encarregado de investigar os crimes cometidos pelos dois lados durante a luta travada em torno do apartheid.
Em 1999, Mandela repassou o poder para líderes mais jovens e, teoricamente, mais aptos a administrar uma economia moderna, num raro momento de afastamento voluntário do poder citado como exemplo para outros dirigentes africanos.
VIDA PESSOAL
Uma aposentadoria tranquila não constava dos planos de Mandela, e o agora ex-presidente voltou suas energias ao combate da Aids na África do Sul, levantando milhões de dólares para enfrentar a doença.
A luta dele contra a Aids adquiriu cores marcadamente pessoais no começo de 2005, quando perdeu seu único filho ainda vivo para a doença.
O país compartilhou a dor do divórcio de Mandela, em 1996, de sua segunda mulher, Winnie Mandela, e viu-o aproximar-se de Graça Machel, viúva de Samora Machel, presidente de Moçambique. Os dois casaram-se em 1998, quando Mandela completou 80 anos.
Em 2007, Mandela comemorou seu aniversário de 89 anos criando um grupo internacional de estadistas mais velhos, entre os quais Desmond Tutu e Jimmy Carter (ambos vencedores, como Mandela, do Prêmio Nobel da Paz). O grupo tem por objetivo enfrentar os problemas que atingem o planeta, entre os quais as mudanças climáticas, a Aids e a pobreza.
Por David Cutler para a Reuters
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