Xico_Lopes Santo Afonso, que no dia de hoje celebramos a sua memória, não teve uma vida fácil. E não foi fácil, porque assim o escolheu. Nascido em família com bens e títulos, poderia ter seguido uma carreira brilhante na vida laica, mas o chamado de Deus ao seu coração foi inevitável, irreversível. Santo Afonso foi sinal de contradição. Em primeiro lugar, para a Igreja da época, que deixava no abandono os pobres dos campos. Diante de uma mentalidade rigorista, que punha a lei e o pecado em primeiro lugar, Afonso apresenta o amor e a misericórdia. Deus nos ama: eis o anúncio predileto de toda a vida de Afonso. Faz da pastoral, e principalmente da moral, a moral do amor de Deus que se transforma em misericórdia. Afonso convida a uma resposta de amor: diante do amor tão grande de Deus, nós somos levados a amá-lo também.

O amor misericordioso de Deus revela-se de modo especial no sacramento da Reconciliação. Esse sacramento será marcante em sua vida. É o homem da escuta aberta, amiga, amorosa. O homem da reconciliação. Ele dizia que o confessor deve ser "rico de amor e suave como o mel". Em 1950, o Papa Pio XII o declarava padroeiro dos confessores e dos moralistas. Até hoje os redentoristas têm na Igreja essa missão: anunciar que em primeiro lugar vem o amor e a misericórdia.

Aqui um pouco da história deste homem santo. Santo Afonso, rogai por nós junto ao Santíssimo Redentor!

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Santo Afonso Maria de Ligório, bispo, escritor, poeta, musicista, Doutor da Igreja, foi fundador de uma das mais ativas e numerosas congregações religiosas: os Padres Redentoristas.

Nasceu na vila da histórica família de Liguori, perto de Nápoles, Itália, em 27 de setembro de 1696, filho de uma das mais antigas e nobres famílias de Nápoles. Dom José, seu pai, pertencia à nobreza, tendo o nome e escudo de fidalgo. Era preposto do rei Carlos VI, comandante dos navios reais. Mas, sobretudo, era um homem profundamente crente. Desposou a Dona Ana Cavalieri, não menos religiosa e nem menos nobre do que ele. Era Ana irmã do bispo de Tróia e pertencia à nobre família dos Cavalieri.

Do pai herdara uma vontade férrea, inteligência viva e perspicaz, enquanto que a mãe plasmou seu coração para a fé a bondade. Ainda pequeno, recebeu do Santo São Francisco de Jerônimo da Companhia de Jesus, a seguinte profecia: "Esta criança, não morrerá antes dos 90 anos; será bispo e realizará maravilhas na Igreja de Deus".

Seu pai destinou-o aos estudos das artes liberais, das ciências exatas, das disciplinas jurídicas, conseguindo Afonso rápidos e surpreendentes progressos. Aos dezesseis anos anos doutorou-se em direito civil e eclesiástico e começou a colher louros e triunfos no foro. Seu pai sentia-se orgulhoso do brilhante futuro que se abria ao filho e já tinha preparado uma noiva, rica e nobre, mas no coração de Afonso, já havia a graça divina aberto profundos sulcos, e inspirado outras rotas de grandeza.

Como advogado, já renomado, recebeu uma causa de grande importância do Duque Orsini contra outro príncipe, o grão-duque de Toscana. Tratava-se nada menos de um feudo no valor de 600.000 ducados. Meticulosamente, nosso advogado estudou o processo, reviu os autos, conferiu documentos. Fez uma brilhantíssima defesa no foro. A vitória parecia mais que garantida quando o contra-atacante lhe chamou a atenção para uma pequena falha que passara despercebida. “Enganei-me” – exclamou o santo. Envergonhado com o fato, retirou-se do fórum, exclamando: “Ó mundo falaz, agora eu te conheço! Adeus tribunais!” Chegando em casa, fechou-se no quarto por muitos dias, entregue à tristeza.

Este acontecimento determinou a reviravolta mais profunda de sua vida. O jovem e brilhante advogado abandonou definitivamente a advocacia para dedicar-se às causas mais nobres na seara evangélica. Completou os estudos de teologia e foi ordenado sacerdote aos trinta anos. Esta mudança custou-lhe renhidas lutas com o pai, que não se conformava com a opção feita pelo filho, renunciando aos títulos de nobreza e à rica herança da família.

Desde então Afonso colocou suas altas qualidades de ciência e de oratória a serviço de Cristo, dedicou-se sobretudo à pregação, com o lema: "Deus me enviou a evangelizar os pobres". Agora foi rápida a carreira de Santo Afonso. Do altar, foi para o púlpito, tornando-se popular como pregador e estimado como verdadeiro apóstolo. Procurava de preferência os pobres Lazaroni e a meninada abandonada pelas ruas de Nápoles. Muito se mortificava Dom José, vendo seu filho metido no meio do povinho, desprezível a seus olhos de fidalgo. Nosso santo não se deixava esmorecer. Passou a morar no Hospício dos Padres Chineses e pensou seriamente em ir para as missões pagãs.

Entretanto, os planos de Deus terminaram por o conduzir a um convento de irmãs em Scala, perto de Amalfi, para onde foi por ter adoecido, e necessitar de repouso. Nesse convento havia a Irmã Maria Celeste Crostarosa que se destacava por sua virtude. A 3 de outubro de 1731 revelou-lhe a Irmã a visão que tivera: Afonso estava designado por Deus para fundar uma Congregação. Começou então o duelo entre Deus e a humildade do Santo. A luta foi um verdadeiro martírio para Afonso. A santa Irmã chegou mesmo a intimá-lo: "D. Afonso, Deus não o quer em Nápoles; chama-o para fundar um novo Instituto".

Resolvido a isso, depois de ter sido orientado pelo seu confessor Facoia, mais tarde bispo, teve o Santo de enfrentar mais uma vez a oposição do pai. Este recriminava ao filho dureza de coração por querer abandoná-lo para meter-se na aventura de fundar um novo Instituto. Mas a graça venceu, e a 9 de novembro de 1732 fundou Afonso, em Scala, a Congregação dos Padres Redentoristas, que no começo tinha o nome de Instituto do Santíssimo Salvador. Os primeiros companheiros de Afonso eram todos sacerdotes, e logo começaram a dedicar-se à pregação. Não tardou, e começaram aparecer divergências nas idéias. Queriam uns que o Instituto, além da pregação, se dedicasse também ao ensino. Afonso insistiu na exclusividade da pregação aos pobres, às regiões de gente abandonada, na forma de missões e retiros. Venceu o seu ponto de vista. Em 1749 o Papa Bento XIV aprovou as Regras do Instituto, que tinha por fim a imitação de Jesus Cristo e a pregação de missões e retiros de preferência à classe mais abandonada. À frente de seus pares percorreu cidades e vilas do Sul da Itália, convertendo pecadores, reformando costumes, santificando as famílias. Era um facho ardente que deixava em chamas de amor divino os lugares por onde passava.

Mais do que sua palavra, pregava o seu exemplo de virtude, de penitência, de caridade e de santa inocência. As cidades disputavam Afonso como pregador. Um dia chegou ao seu conhecimento, que o queriam nomear arcebispo de Palermo. Pediu orações para que se evitasse "o grande escândalo" desta nomeação (os redentoristas se obrigam a renunciar à toda dignidade eclesiástica). Mas em 1762 o Papa Clemente XIII impunha-lhe a mitra de "Santa Ágata dei Goti".

"Vontade do Papa é a vontade de Deus", disse o santo, e curvou a fronte. Durante 13 anos pastoreou a sua diocese, reformou-lhe o clero, os costumes, as Igrejas. Outra tornou-se a vida religiosa nos mosteiros e conventos. Os diocesanos que tinham um santo por bispo, quando vendeu até as alfaias, os móveis de seu pobre palácio, seu anel de bispo, para acudir aos necessitados.

Em 1775, a seu pedido, livrou-o do bispado o Papa Pio VI. O santo patriarca voltou pobre para o seu convento, e ali a mão de Deus o experimentou e lhe burilou ainda mais as facetas de virtude. Afonso, acabrunhado por sofrimentos físicos, teve o desgosto de ver a cisão no seu Instituto e, por mal-entendidos, foi até excluído na Congregação que fundara.

Com heróica paciência, a tudo se sujeitou. Velho e doente, animava a Clemente XIV, para resistir aos que queriam suprimir a Companhia de Jesus. E, numa prodigiosa bilocação, foi assistir ao referido Papa na hora de sua agonia. Os últimos anos do Santo são síntese, em tudo de terríveis adversidades. Equivalem ao aniquilamento sem igual do próprio eu. De brilhante advogado, de festejado sacerdote a  pregador de  penitência por excelência, de religioso estimado e fundador querido, de bispo douto, de príncipe da Igreja, santo e venerado, foi reduzido a nada. Vemo-lo bispo sem diocese, Superior sem súditos, Fundador desligado da sua Ordem. Tudo isto devido ao  espírito anti-religioso do século, e não menos à falta de consciência e à deslealdade de alguns de seus discípulos, que injustamente o entregaram aos poderes do governo hostil, e o puseram em situação desfavorável com a própria Santa Sé. A estas duríssimas  provações, se associaram sofrimentos físicos, próprios da velhice, que bastante o maltrataram.  Sobrevieram-lhe, ainda, a surdez e a cegueira, que o reduziram a um estado de lastimável miséria. Das profundezas da sua alma dorida clamava a Deus misericórdia e auxílio. Doença e fraqueza exigiam-lhe, muitas vezes, o sacrifício de não poder celebrar a santa missa. Em todas estas tormentas, que lhe advinham de todos os lados, eram sua singular energia, a paciência e a fortaleza, que o faziam segurar firme o leme, e este não lhe escapou das mãos.

Fundado na mais sólida humildade, não acusava senão a si próprio; a todos que indignamente tinham abusado da sua confiança, oferecia e dava pleno perdão. A todas as pretensões de censura às decisões da Santa Sé, tinha só esta resposta: "O Santo Padre assim o quer; o Papa assim decidiu". Em tudo reconhecia a adorável vontade de Deus, à qual confessou  incondicional e completa sujeição. O piedoso Jó, golpeado de todos  os infortúnios do humano sofrer, traído e ludibriado pelos companheiros do mesmo sangue, não podia suportar a  sua desgraça com mais humildade, conformidade e de um modo mais edificante que Santo Afonso. Após longo martírio no corpo e na alma morreu calmamente no Senhor a 1º de agosto de 1787 na idade de 91 anos, na localidade de Nocera de’ Pagani. Em 1816 foi declarado beato. Foi canonizado em 1839 por Gregório XVI, honra que Pio VIII lhe quisera prestar já em 1830, não o podendo por causa da revolução.

Santo Afonso foi um prodigioso escritor. Nos seus últimos doze anos de vida, para não faltar ao programa que se propusera quando jovem, de não perder mais tempo jamais, dedicou-se à redação de livros, enriquecendo a coleção de obras ascéticas e teológicas. Deixou para os sacerdotes a sua célebre Teologia Moral; para os religiosos a Verdadeira Esposa de Cristo; para o povo cristão, livros cheios de verdadeira e ungida piedade, tais como as Meditações sbre a Paixão do Salvador, Glórias de Maria, Visitas ao SS. Sacramento, Tratado sobre a oração.

Foi historiador, apologeta, pregador, poeta e exímio musicista. A devoção popular muito deve às suas canções por ele escritas e musicadas. Até hoje no tempo de Natal, é comum escutar o seu "Tu Scendi dalle Stelle" - Tu desces das estrelas.

A Igreja deu-lhe o título de Doutor zelosíssimo. As obras de Santo Afonso têm a perenidade das fontes seculares.

Reflexão: Imitemos Santo Afonso, empregando o nosso tempo em trabalhos e orações fugindo assim do pecado e do mal emprego do nosso tempo. Só com a oração e num trabalho com o Cristo encontraremos a força e a graça para salvar nossa alma e nos santificarmos.

Referências bibliográficas:

1. Na luz Perpétua,  5ª.  ed., Pe. João Batista Lehmann, Editora Lar Católico - Juiz de Fora - Minas  Gerais,  1959.

2. Oração das Horas - Editora Vozes, Paulinas, Paulus e Ave-Maria, 1996.

Fonte: Página Oriente

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