218\ PT e FARC: As ligações perigosas
Não tenho por característica, ser precipitado. Há até os que me acham cauteloso demais. Pode ser. Aprendi com minha mãe, repositório de aforismos, que "cautela e canja de galinha, não fazem mal a ninguém." Mas, esta notícia, publicada nos grandes veículos de comunicação nesta semana, que trago para vocês, me causa inquietação, muita inquietação. Embora, e lá vem a cautela, não seja conclusiva, mais parecendo um daqueles "tiros no escuro", não deixa de ter a sua cota de factibilidade. Quem conhece a vocação de certas camadas do petismo, e eu as conheço, sabe que se o fato não for verdadeiro, muito provavelmente, passou perto disto.
Não estou aqui para jogar mais lenha na fogueira, mas preocupam-me e muito estas "ligações perigosas", assim como me preocupa o apoio quase descarado que o governo petista hipoteca a grupos como o MST, a "amizade" com Chávez, com Evo Morales, e outros que invocando causas sociais, o tão "sonhado" ideal socialista afrontam as leis vigentes e tripudiam as instituições democráticas.
Não sou radicalmente contrário ao socialismo, tenho mesmo afinidade com certas posições tradicionalmente identificadas como de "esquerda", e tem mais, sou até canhoto!
Eu torço com real sinceridade para que não haja este comprometimento entre um governo (que não apóio) mas que foi eleito legitima e democraticamente, com grupos como as FARC, que no começo poderiam ser apenas equivocados quanto a estratégia que adotaram, mas que ao longo dos anos revelaram a sua pior faceta.
Raúl Reyes (imagem: http://alexismarrero.blogspot.com/)
A reportagem completa, da Revista Cambio está aqui: http://www.cambio.com.co/portadacambio/787/4418592-pag-2_4.html
Há cinco meses, tropas colombianas abriram uma clareira na selva em local próximo à fronteira da Colômbia com o Equador. Realizada em território vizinho, a caçada implodiu um dos centros de comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), matou 23 de seus integrantes e causou um grave incidente diplomático na América do Sul.
Em meio aos destroços, os militares recuperaram intactos três computadores portáteis que pertenciam a Raúl Reyes, o número 2 das Farc, especialista em finanças, expoente da ala mais radical e sangrenta da guerrilha e que foi morto na operação. A memória resgatada dos computadores de Reyes tem provocado efeitos políticos extraordinariamente positivos na região.
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, aparece nas mensagens como financiador das ações do grupo terrorista. O pouco que se revelou do conteúdo do computador do terror sobre Chávez já fez o ditador venezuelano abrandar o tom. De revolucionário passou, de uma hora para outra, a conciliador.
Na semana passada, a revista colombiana Cambio publicou uma reportagem com base nos dados resgatados do computador de Reyes, mostrando que também no Brasil os tentáculos são tão grandes quanto já se suspeitava. É conhecida a histórica afinidade ideológica dos radicais do PT – felizmente, uma minoria – com o grupo terrorista. Os arquivos eletrônicos apreendidos, porém, revelam que desde a posse do presidente Lula essa aproximação foi ficando cada vez mais intensa, envolvendo integrantes do governo em ações políticas de interesse dos guerrilheiros.
As novas evidências sobre esses laços clandestinos estão reunidas em 85 mensagens eletrônicas trocadas por representantes das Farc entre 1999 e 2008. Apreendidos nos computadores de Reyes, os arquivos chegaram às mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e foram objeto de uma conversa mantida pelo presidente brasileiro com seu colega Álvaro Uribe na visita que Lula fez à Colômbia, há duas semanas. Embora nenhuma das mensagens divulgadas até agora tenha como interlocutor alguém do PT ou do governo, existem diversas referências a membros do partido e do governo brasileiro.
Petistas e membros do governo que supostamente (ainda!) intercederam em favor das FARC
A correspondência sugere vínculos das Farc com parlamentares, dirigentes petistas, cinco ministros e ex-ministros e três assessores pessoais do presidente Lula. As referências, em sua ampla maioria, revelam apenas tentativas de aproximação com o governo por meio de dirigentes e parlamentares petistas. Não haveria, portanto, nada que pudesse levar à conclusão de que há ou havia entre eles uma relação mais estreita. O problema é que, ao se verificarem alguns dos assuntos tratados, percebe-se que as ações de interesse dos narcoguerrilheiros foram bem-sucedidas – parte delas com apoio, segundo os relatos, de pessoas influentes do governo.
Um dos casos mais interessantes relatados nas correspondências apreendidas envolve o ex-ministro José Dirceu. Em junho de 2005, quando ele ainda era o todo-poderoso chefe da Casa Civil do governo, houve um misterioso encontro em Cuba entre um representante das Farc e o jornalista brasileiro Breno Altman. Em uma mensagem arquivada no dia 4 daquele mês, um guerrilheiro, chamado José Luis, faz um relato ao comandante Reyes: "Um jovem que se apresentou como Breno Altman me disse que vinha de parte do ministro José Dirceu e que, por motivos de segurança, eles tinham concordado que as relações não deviam passar pela Secretaria de Relações Internacionais, mas, sim, pelo ministro, com a representação de Breno".
Não se sabe que tipo de relações o guerrilheiro descreve, mas fica evidente que se trata de alguma coisa clandestina. O jornalista Breno Altman é um dos fundadores do PT e amigo do ex-ministro José Dirceu. Ele confirmou que esteve com o guerrilheiro em Havana, mas garante que não se apresentou em nome do ex-ministro. Dias depois do encontro, porém, Reyes relata o resultado da reunião com "o enviado de Dirceu", afirmando que o governo Lula "aceita a presença discreta de Olivério no país". Olivério é o ex-padre Olivério Medina, guerrilheiro condenado na Colômbia por vários crimes e escondido no Brasil desde 1997. O padre é o personagem principal das conexões das Farc com o governo brasileiro.
Em março de 2005, três meses antes do encontro de Havana, VEJA publicou uma reportagem revelando que agentes da Abin monitoraram uma reunião política comandada por Olivério Medina em uma chácara nos arredores de Brasília. Segundo o relato dos espiões do governo, que se infiltraram no encontro, além do padre, compareceram cerca de trinta pessoas, entre militantes petistas de Brasília e representantes de uma tal corrente Luís Carlos Prestes. Era 13 de abril de 2002. Em frente a uma bandeira das Farc, os convidados cantaram o hino da guerrilha, gritaram algumas palavras de ordem e, depois, sentaram-se e passaram a discutir as eleições presidenciais.
Medina revelou que os guerrilheiros doariam 5 milhões de dólares à campanha de Lula. Os detalhes da reunião, incluindo a promessa da doação milionária, foram registrados em um documento da agência, classificado como secreto. A Abin não conseguiu descobrir se a promessa foi cumprida. Na época, Medina circulava tranqüilamente por Brasília, participava de reuniões políticas e arregimentava simpatizantes para a organização. Era conhecido como o embaixador das Farc no Brasil.
O baú digital das Farc revela uma incrível coincidência entre a reunião testemunhada pelo espião oficial e os vestígios de ligações da guerrilha com o PT. Em julho de 2005, Olivério Medina, figura central nos dois episódios, despachou uma mensagem para Raúl Reyes, listando apoios financeiros que as Farc vinham recebendo no Brasil. As cifras são irrelevantes, mas a lista apresenta pontos de contato com a reunião secreta flagrada pela Abin. Citada por Medina, a tal Corrente Comunista Luis Carlos Prestes teria doado 766,66 dólares. Um dos militantes da entidade era também proprietário da chácara onde Medina anunciou a doação milionária ao PT.
É um paradoxo que o terrorista Medina faça questão de anotar apoios financeiros irrisórios ao mesmo tempo em que se vangloria de conseguir milhões de dólares para a campanha petista. Não é nem de longe, porém, tática estranha aos movimentos revolucionários. É célebre a proposta feita pelo cubano Fidel Castro ao escritor peruano Mario Vargas Llosa quando este, ainda militante de esquerda, ganhou um prêmio em dinheiro do Pen Club International, entidade sem filiação partidária de apoio a intelectuais. Llosa recebeu 9.000 dólares. Fidel propôs a ele que doasse publicamente os 9.000 dólares à Revolução Cubana com a promessa de que lhe daria 18.000 dólares, o dobro, por debaixo do pano. Vargas Llosa denunciou a manobra e desiludiu-se de Fidel e seus barbudos.
Apesar de o governo ter supostamente garantido a "presença discreta" de Medina no país – muito provavelmente devido à repercussão do caso da doação milionária –, em agosto de 2005 o padre foi preso pela Polícia Federal, a pedido da Justiça colombiana, sob acusações de terrorismo, assassinato, seqüestro e extorsão. Dois anos depois, contudo, o Supremo Tribunal Federal (STF) negou seu pedido de extradição graças a uma decisão do governo que, um ano antes, concedeu a Medina a condição de refugiado político. Outra vez as mensagens apreendidas indicam que o governo e o PT estavam mesmo empenhados em proteger o terrorista. Em janeiro de 2007, o próprio Medina informa a Raúl Reyes que conseguiu um emprego no governo para a mulher, Angela Slongo. "Para evitar que a direita em algum momento a importune, deixaram-na na Secretaria de Pesca, trabalhando no que chamam um cargo de confiança ligado à Presidência da República."
O correio eletrônico do ex-número 2 das Farc ainda revela contatos da organização com o chefe-de-gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, e com o ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores. Em nota, o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, negou qualquer relação entre o governo brasileiro e os narcoterroristas. "Não há interferência em assuntos internos da Colômbia nem qualquer tipo de apoio às Farc", afirmou.
Informalmente, porém, assessores de Lula contam que a divulgação das mensagens que citam membros do governo brasileiro foi motivada por vingança do ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, cuja família controla o grupo de comunicação que publicou a reportagem naquele país. O governo colombiano, segundo a teoria oficial, seria contrário à adesão do país ao Conselho de Defesa Sul-Americano. Na visita de Lula à Colômbia, há duas semanas, Uribe teria mudado de idéia após ouvir os argumentos do presidente brasileiro. Em retaliação, os militares colombianos teriam divulgado apenas as mensagens supostamente comprometedoras, deixando de lado outras que provariam exatamente o contrário – o distanciamento dos petistas em relação à guerrilha. Se isso for verdade, bastará ao governo divulgar a íntegra do material, que foi recebido há três meses e guardado a sete chaves.
Fonte: Alexandre Oltramari para a Veja
-
Subscribe to this blog's RSS feed











