Xico_Lopes Sábado é um bom dia para a cultura, pensando nisto trago para vocês um pouco do perfil de Luísa Queirós, uma pintora que aprecio muito, pelo colorido de suas telas, mas a Luísa não é só pintura, é consciência política e cultural. Conheçam-na!

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Lumdum - Núpcias de Luísa Queirós 

183LuisaQueiros Luísa Queirós teve uma caixa cheia de botões, que outras crianças lhe davam em troca de desenhos, fez cartazes de apoio a Humberto Delgado e em 1975 mudou-se para Cabo Verde, onde pinta para o arquipélago e para o mundo.

Com obras expostas em instituições ou em coleções particulares em vários países, com quadros que já estiveram em exposições em Portugal, Áustria, Bélgica ou Estados Unidos, Espanha ou França, é na ilha cabo-verdiana de S. Vicente, no Mindelo, que Luísa Queirós vive, e onde quer morrer. "Rompi completamente com Portugal".

Nascida em Lisboa, onde estudou e se licenciou em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes, Luísa Queirós foi depois professora de desenho, ao mesmo tempo que ia encetando a sua luta contra o regime de Salazar, difícil porque "todos os diretores (das escolas) eram fascistas".

Em Lisboa conheceu outro artista, Manuel Figueira, cabo-verdiano, com quem viria a casar, voltando com ele as costas à capital portuguesa logo após o 25 de Abril. Ontem como hoje, apesar da calma que lhe entra pela janela do seu ateliê no Mindelo, Luísa é uma pessoa inconformada, sem problemas em criticar a falta de uma política cultural no país que adotou e onde, em 2000, o Presidente da República a condecorou com a primeira classe da Medalha do Vulcão.

Já antes, nos tempos de estudante do liceu Maria Amália, fazia cartazes de apoio ao movimento encabeçado por Humberto Delgado e contra o antigo regime, aproveitando os seus dotes para a pintura. Porque teve "consciência política desde muito cedo, contra o regime e contra a Igreja que o ajudava".

"Sempre lutamos e escrevemos nas paredes e distribuimos panfletos. Na década de 60 as pessoas já andavam doentes com o fascismo", recorda agora, sentada numa cadeira de balanço colorida.

E lembra depois que também como professora teve as suas amarguras, como quando fez um trabalho com os alunos sobre Guernica (quadro de Pablo Picasso representando o bombardeamento pela Alemanha nazista da cidade com o mesmo nome), que foi estranhamente roubado e que a levou ao então Ministério da Educação para lhe dizerem que "tinha estado a fazer uma coisa horrorosa".

Prejudicada no ensino, andou de escola em escola, teimosamente politizando os alunos nas aulas de desenho e pagando com isso o ser sempre professora provisória.

Em Cabo Verde desde janeiro de 1975, foi também professora ao mesmo tempo que, um ano depois, estava na criação da Cooperativa Resistência, onde ensinava tecelagem, criando com outros artistas, em 1978, o Centro Nacional de Artesanato, sendo professora de pintura, de tecelagem e de batik. Depois criou marionetes, escreveu livros para crianças, em 1998, foi-lhe atribuido o “Grande Prêmio Gulbenkian de Literatura para Crianças”, pela autoria do texto e das ilustrações de “Saaraci, o Último Gafanhoto do Deserto” , além de ter ilustrado outros livros.

Mas não esquece que se "podiam fazer coisas muito interessantes" se "não fossem a estupidez dos políticos, as más intenções e as vinganças pessoais", causas que levaram ao encerramento do Centro de Artesanato que ajudara a criar.

Não há, exemplifica, um Museu da Cultura cabo-verdiana, como não há uma política de recolha do trabalho que se fez e faz, como não é fácil expor no estrangeiro, porque levar quadros a Lisboa "é uma dificuldade e trazê-los é um drama" correndo os pintores o risco de ainda pagarem no regresso, como se estivessem a fazer uma importação.

"De vez em quando há um cansaço de não conseguirmos fazer as coisas que são justas", diz, acrescentando que ainda assim não está arrependida das suas opções de vida e de sempre ter tentado transportar para Cabo Verde os conhecimentos que trazia da universidade.

No arquipélago, no Mindelo, encontrou também a paz de que precisava, um outro relacionamento com as pessoas. "Aqui vive-se muito na rua, mesmo quando morávamos em Lisboa já pensávamos em viver numa cidade menor".

Ainda assim, Luísa Queirós quer pintar as ruas onde cresceu, depois do trabalho que agora a absorve, "Naufrágios", uma série de pinturas de barcos abandonados e de naufrágios, que o podem ser "apenas em sentido figurado", porque a pintora gosta de se empenhar em temas, como gosta de usar tela e papel.

É em tela, papel, fotografias e pequenas esculturas a sua próxima exposição, antes do fim do ano, no Mindelo.

Só do livro de José Saramago "Jangada de Pedra" tirou inspiração para 14 pinturas, três das quais ofereceu ao prêmio Nobel, e as mulheres muçulmanas também lhe mereceram uma série.

As telas, essas e outras, algumas de grandes dimensões e sempre muito coloridas, enchem-lhe o ateliê, assim como a luz que entra pela janela vinda da baía do Mindelo, onde ao fim da tarde o sol se põe atrás de Santo Antão e os pescadores fazem ouvir-se nos barcos espalhados pela areia.

É ali a "casa" de Luísa Queirós. "Tive um corte total com Portugal. Total", diz.

Fonte: Fernando Peixeiro, da Agência Lusa

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