038|Hoje, 60 anos da realização de um sonho de 2.000 anos
Olhar Global no dia de hoje também se une a todos os que prestam homenagens pelos 60 anos de existência do Estado de Israel. Com esse propósito trazemos o texto da autoria de Inácio Steinhardt, inicialmente publicado no sempre brilhante Rua da Judiaria.
O ESTADO DE ISRAEL completa no dia de hoje o 60.º aniversário da sua independência. O que tem isso de extraordinário - dirão alguns - todos os povos comemoram uma vez por ano a sua independência, há dezenas ou centenas de anos e 60 anos não são uma história assim tão longa como isso.
A diferença, para o bem e para o mal, é que este povo existe há mais de 3.000 anos. Perdeu a sua independência há dois mil e só há 60 anos a recuperou. Durante dois mil anos andou de terra em terra, de malas na mão, procurando encontrar sossego e sustento, onde lhe permitiam e enquanto lhe permitiam, até que lhe fosse dado regressar à terra dos seus antepassados.
Em dois mil anos poderia talvez ter aprendido a lição da história, feita toda ela de relatos de povos, que tiveram as suas pátrias, e as viram conquistadas por outros povos. Que se assimilaram aos vencedores ou emigraram para outras, a cujos povos se assimilaram, desaparecendo como entidade nacional. Vejamos, como exemplo, como se formou a península ibérica. Vieram os iberos e estabeleceram-se no território. Depois juntaram-se-lhes os celtas e formaram um novo povo: os celtiberos. E assim foram chegando, um após outro, outros povos, que conquistaram o território, assimilaram a si os autóctones, ou foram, por sua vez vencidos por novos conquistadores: romanos, visigodos, árabes, sem contar com os colonos fenícios e cartagineses. Hoje a população de Portugal e Espanha é uma amálgama de povos e de raças.
Judeus já existiam na península quase desde o princípio do povoamento. Mas nunca vieram para conquistar. Por quê? Porque a história e a religião dos judeus é de tal ordem, que este povo só pode subsistir na Terra onde nasceu, a Terra de Israel. Quando o seu pensamento não estiver neste pequeno pedacinho de terra, o povo judeu deixará de existir.
É difícil explicar por quê. Mas enquanto viviam e labutavam na Península Ibérica, “no extremo do Ocidente” - como escreveu nessa altura o poeta Judah Halevy - o seu coração estava no Oriente. Em cada nova geração, houve sempre visionários que anunciavam o próximo regresso. Quando os expulsavam de uma terra, iam para outra. Quando os expulsaram da Espanha, foram para Portugal. Quando os converteram à força em Portugal, foram para a França, para a Holanda, para o Império Otomano, voltando aí ao Judaísmo, rezando sempre com os olhos em Jerusalém. Sempre com o bordão na mão, as malas feitas, e a esperança no coração. A Esperança que é também o nome do hino da sua pátria renovada, que levou dois mil anos a conseguir.
As parábolas, tão comuns aqui no Oriente, são uma forma avisada de fazer compreender conceitos difíceis de explicar por outro modo. Conta-se que, uma vez, na Polônia, em pleno mês de outubro, um pai e um filho se dirigiam para a sinagoga, sob chuva torrencial. Era o dia de Shemini Asseret, em que os judeus pedem a Deus que abençoe o ano, para que o inverno seja chuvoso e as terras produzam boas colheitas. Perguntou o filho ao pai: “Está a chover tanto e nós vamos hoje pedir mais chuva?”. Respondeu o pai: “Nós vamos pedir a Deus que mande chuva na nossa terra, na Terra de Israel, onde faz tanta falta.”
Quando, em 29 de Novembro de 1947, as nações do Mundo, reunidas na Assembléia Geral das Nações Unidas, decidiram conceder ao povo judeu o direito que têm todos os povos, concedendo-lhe metade do território da Terra de Israel, e criando, ao mesmo tempo, um Estado Árabe na outra metade, essa decisão histórica podia ter sido o início de uma nova era de paz, de boa vizinhança e de prosperidade para os dois povos. Por isso o Conselho do Povo aceitou essa limitação. Em vez disso, cinco exércitos árabes (Transjordânia, Egito, Síria, Líbano e Iraque) invadiram o território do Mandato Britânico, ameaçando expulsar todos os judeus para o mar.
Aos judeus só restava uma alternativa: vencer esses cinco exércitos ou permitir que a ameaça dos atacantes se concretizasse. Numa guerra, o lado que não tem outra alternativa para sobreviver, tem que vencer.
Lembram-se da resposta do Marquês de Pombal perante a ameaça dos espanhóis? “Muito pode um homem em sua casa, que até depois de morto são precisos quatro para o levarem!”.
Em Maio de 1948, o Conselho Superior Judaico trocou os passaportes palestinos, que os ingleses tinham emitido aos habitantes da sua metade do território, judeus, árabes, cristãos e drusos, por passaportes do novo Estado de Israel. Desde então, ainda não houve um dia de paz nesta região, apenas uma situação, que se mantém há 60 anos, ora uma nova guerra ora tréguas, atentados terroristas e ameaças de destruição.
Dois países árabes invadiram a parte da Palestina que a ONU tinha destinado à população árabe da Palestina: o Egito, na Faixa de Gaza, e a Transjordânia, que ocupou a Cisjordânia e mudou o nome do seu reino para Jordânia. Aí se mantiveram até 1967.
Nessa altura, nenhum desses países, nem sequer os habitantes árabes desse território, falaram num Estado Independente da Palestina, que, a constituir-se, deveria incluir uma grande parte do que hoje é a Jordânia, pois metade da sua população era e é palestina. Os restantes são beduínos. Em 1967, na sequência de mais uma tentativa de invasão árabe, o exército israelense ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Por muito estranho que isso pareça, iniciou-se um período de boa vizinhança e de co-operação entre os dois povos.
Os israelenses visitavam as áreas árabes e ajudaram a desenvolver o turismo e o comércio. Os árabes vinham ao Estado de Israel, uns procurar trabalho, outros comprar novos produtos que aqui se produziam, aprender novas tecnologias e novos processos de agricultura. Entretanto, apesar das guerras, apesar do clima de insegurança, apesar da necessidade de manter toda a população em constante estado de alerta e de preparação, apesar do enorme ônus da defesa no orçamento anual do estado, Israel conseguiu desenvolver um enorme avanço científico e tecnológico, e ao mesmo tempo, um lugar preponderante na cultura, nas artes plásticas, nas letras, na música, no teatro e no cinema.
Dizia-me, em 1969, o filho de um potentado árabe com quem almocei em Gaza: “Vocês fizeram um erro tremendo. Nós sabíamos como se vivia bem em Tel Aviv e nas outras cidades de Israel. A minha irmã, que vive no Líbano, e tem dois passaportes, tem conta aberta nas lojas de modas da Rua Dizengoff, em Tel Aviv. Mas nós dizíamos à população que nessa cidade as pessoas morriam de fome nas ruas. Agora vocês abriram-lhes o acesso às vossas cidades. Eles vão lá e vêem a realidade. Arranjam trabalho, e ganhando mesmo o que, para vocês, são ordenados de fome, hoje, até nas aldeias palestinas, cada casa já tem uma geladeira na cozinha e uma antena de televisão no telhado. Mas um dia vocês terão que se ir embora. Então o povo virá exigir de nós a mesma situação e nós não lhes poderemos dar trabalho. Vão correr rios de sangue e eu não quero aqui estar quando isso suceder. Por isso já comprei sete andares de luxo na Inglaterra.”
Muitos israelenses também atribuíam ao general Moshe Dayan semelhante responsabilidade por esse erro. Dizem eles, talvez com razão, que ele deveria ter aproveitado o resultado favorável da guerra de 1967, para logo ali fazer as pazes com o Egipto e com a Jordânia, negociando com eles pequenos acertos estratégicos de território e traçando finalmente uma fronteira reconhecida, que ainda hoje não existe. O erro foi feito, e muitos outros seguiram, alimentando o extremismo dos fanáticos de ambas as partes: implantação de colônias judaicas, por um lado, e desenvolvimento dos atentados terroristas, pelo outro.
Então, por volta de 1971, pela primeira vez se começou a falar na idéia de um Estado Palestino independente. Pela primeira vez surgiu o movimento nacionalista palestino. Pouco tempo depois, quando o presidente Anwar Saadat, do Egito, se propôs finalmente a negociar um tratado de paz com Israel, o primeiro-ministro israelense, Menahem Begin, ofereceu-lhe a entrega da Faixa de Gaza, juntamente com a Península do Sinai ocupada. Sadat declinou terminantemente essa oferta, ameaçando mesmo anular a proposta de paz, se os israelitas insistissem em entregar-lhe a responsabilidade sobre Gaza. Hoje, face ao que está a suceder na Faixa, podemos compreender por quê!
Também com a Jordânia foi feito um tratado de paz, o Líbano é teoricamente um país, cuja população anseia por concretizar a amizade com Israel, mas é dominado pelos extremistas estrangeiros, que não o permitem. E talvez a Síria um dia se decida finalmente a deixar normalizar a vida desta região. Mas o preço que Israel pagou e ainda está a pagar pela ocupação é enorme.
Parece um sacrilégio dizer isto face ao sofrimento da população palestina e do ódio que ele criou tanto nos adultos como nas crianças. Mas o preço mais elevado para os israelenses talvez não tenha sido os mortos, nem os atentados terroristas. O que o prolongamento da ocupação provocou foi uma deterioração moral interna, sobretudo no seio da juventude, obrigada a servir o país não numa guerra contra soldados, mas no seio da população que serve de escudo aos combatentes palestinos. Com os anos, que vão passando os israelenses sentem o crescimento da violência interna e do crime organizado.
Dizia uma vez Golda Meir, numa daquelas frases que se dizem para a história, mas que neste caso, sincera ou não, me parece muito certa: “Nós poderemos um dia perdoar aos árabes as mortes dos nossos filhos. Será mais difícil perdoar-lhes o terem obrigado a mandar os nossos filhos combater contra eles.” Hoje mesmo, quando estou a escrever isto, três anos depois de Israel ter saído unilateralmente da Faixa de Gaza, as forças do Hamas lançam mísseis sobre as povoações civis israelitas da região, e, o que é mais incompreensível, contra os postos de passagem dos gêneros alimentícios, gasolina e medicamentos que vêem de Israel para a sua população.
O Dia da Independência do Estado de Israel é na realidade dois dias. O primeiro é um dia de luto. Soam as sirenes em todas as povoações para um minuto de silêncio e meditação; o povo une-se em orações recordando os milhares de soldados mortos nas guerras. E com eles as vítimas dos constantes atentados terroristas. As famílias visitam os cemitérios militares e choram junto às campas dos seus entes queridos, cujas vidas foram ceifadas, para que no dia seguinte se possa celebrar com explosões de alegria, bem justificada, mais um ano de sobrevivência e de valiosa realização humana. É um dia de orgulho nacional, pelas sua realizações, e de festas nas ruas e piqueniques. Sessenta anos.
Fonte: Rua da Judiaria
Shalom Israel!
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