034|Irena Sendler, um exemplo de vida
Esta senhora de olhar doce, tinha mais doce ainda o seu coração. Mas não pensem que a doçura a impediu de ser corajosa. Sua vida é um exemplo que nos mostra o quanto podemos chegar por amor ao próximo, enfrentando a tirania do Estado e a insanidade de outros humanos.
A polonesa salvou da morte milhares de crianças judias retirando-as clandestinamente do gueto de Varsóvia.
Irena Sendler posa em sua casa em Varsóvia, em foto de 14 de março de 2007
(Foto: Katarina Stoltz/Reuters)
Uma das grandes heroínas polonesas da Segunda Guerra Mundial, Irena Sendler, que salvou a 2.500 crianças judias do gueto de Varsóvia, morreu nesta segunda-feira (12) aos 98 anos. Segundo a filha dela, Janina Zgrzembska, Irena havia sido internada desde o mês passado em um hospital de Varsóvia por conta de uma pneumonia.
Assistente social, Irena Sendler trabalhou antes da guerra com famílias judias pobres de Varsóvia. A partir do outono de 1940, passou a correr riscos ao fornecer alimentos, roupas e medicamentos aos moradores do gueto instalado pelos nazistas. No fim do verão de 1942, Irena Sendler se uniu ao movimento de resistência Zegota (Conselho de Ajuda aos Judeus).
Irena Sendler ou “a Schindler desconhecida”, como alguns a designam. Em 1999 sua história começou a ser conhecida graças a um grupo de alunos de Kansas através de um trabalho de conclusão de curso sobre os Heróis do Holocausto. Na pesquisa encontraram poucas referências sobre Irena com um dado surpreendente: 2.500 vidas foram salvas por ela. Como era possível não existir informação sobre uma pessoa assim? Mas a maior surpresa viria depois. Ao investigarem o local do túmulo de Irena descobriram que nunca existiu porque ela estava viva.
Quando a Alemanha invadiu o pais em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem-estar Social de Varsóvia, onde cuidava das refeições comunitárias. Desde o outono de 1940, Irena Sendler assumiu riscos consideráveis para levar alimentos, roupas e remédios aos habitantes do gueto que os ocupantes nazistas instalaram num quarteirão da capital. Em 4 km², eles colocaram 500.000 pessoas.
No Gueto de Varsóvia, Irena se viu horrorizada pelas condições de vida impostas a seus moradores. Devido à falta de comida, muitos morreram de fome ou em decorrência de doenças. Os outros foram mandados para as câmaras de gás do campo de Treblinka. No fim do verão de 1942, ela resolveu unir-se ao movimento de resistência Zegota (Conselho de Ajuda aos Judeus) criado por um grupo de resistência heróica antes de o exército nazista destruir completamente o quarteirão.
Como os alemães receavam uma epidemia de tifo, aceitavam a ajuda dos poloneses para controlar a situação e os deixavam tomar conta do local. Irena fazia contato com as famílias oferecendo ajuda para levar filhos e netos com ela para fora do Gueto. Era um dos momento mais dolorosos de sua experiência; deveria obter a confiança dos pais e convencê-los a entregar-lhe seus filhos. Era indagada: “Pode prometer que meu filho viverá?…..”
E a única coisa que poderia dar como certa é a de que morreriam se permanecessem ali. O mais duro era o momento da separação. Começou a tirá-los em ambulâncias como vítimas de tifo, e se valia de todos os meios e de tudo o que estivesse ao seu alcance para escondê-los e tira-los dali: cestas de lixo, sacos de batatas, malas, etc. Em suas mãos, qualquer coisa se transformava numa via de escape. Conseguiu recrutar ao menos uma pessoa de cada um dos dez centros do Departamento de Bem-estar Social. Com a ajuda dessas pessoas elaborou centros que elaboravam documentos falsos, dando uma nova identidade temporária às crianças judias.
- Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos da paz.
Era incansável. Queria que um dia as crianças pudessem recuperar seus verdadeiros nomes, sua identidade, suas histórias pessoais e suas famílias. Foi quando inventou um arquivo que registrava os nomes das crianças com suas novas identidades. Anotava os dados em pedaços de papel que enterrava, dentro de potes de conserva, debaixo de uma macieira, no jardim do seu vizinho.
Algumas vezes quando Irena e suas companheiras retornavam a estas famílias a fim de persuadi-las entregar seus filhos era informada que todos haviam sido levados aos campos de extermínio. Cada vez que isso ocorria, ela lutava com mais força para salvá-las. Quando caminhava pelas ruas do gueto, Sendler usava uma braçadeira com a Estrela de David, em solidariedade aos judeus, e afim de não chamar a atenção.
Um dia os nazistas acabaram descobrindo suas atividades e a levaram à prisão. Era o dia 20 de outubro de 1943, quando foi detida pela Gestapo e levada à prisão de Pawiak. Quebraram-lhe os pés e as pernas, além de inúmeras outras brutais torturas. Queriam que delatasse quem eram seus colaboradores e os nomes das crianças que ajudara a salvar. Por não revelar absolutamente nada, em total silêncio, foi sentenciada a morte. Em um colchão de palha, na sua cela, encontrou uma estampa de Nosso Senhor Jesus Cristo, que ficou com ela por resultado de uma casualidade miraculosa, até 1979, quando a deu de presente ao Papa João Paulo II.
Irena era a única pessoa que sabia os nomes e onde se encontravam as famílias que abrigaram as crianças judias. A caminho de sua execução, o soldado que a levava a deixou escapar. Embora oficialmente ela constasse nas listas dos executados, a resistência havia subornado o soldado, salvando a vida de Irena. Ela mesma desenterraria os vidros com as anotações e tentaria unir as 2.500 crianças que colocou com famílias adotivas devolvendo-os a suas verdadeiras famílias. Infelizmente, a maioria tinha perdido seus pais e irmãos nos campos de concentração nazista.
O pai de Irena, um médico que falecera de tifo quando ainda pequena, lhe fez memorizar o seguinte: “Ajude sempre a quem estiver se afogando, sem levar em conta a sua religião ou nacionalidade. Ajudar cada dia alguém tem de ser uma necessidade que saia do coração.”
As crianças só a conheciam pelo apelido: Jolanta.
Anos mais tarde, quando a sua história saiu num jornal com sua foto antiga, diversas pessoas entraram em contato: “Lembro de seu rosto… sou uma daquelas crianças, lhe devo a minha vida, meu futuro, e gostaria de vê-la!”
Irena viveu anos numa cadeira de rodas pelas lesões e torturas impostas pela Gestapo. Nunca se considerou uma heroína e jamais reivindicou crédito por suas ações: “Poderia ter feito mais” e completa: “Este lamento me acompanhará até o dia de minha morte!”
Irena faleceu no dia de hoje, e somos nós que temos a lamentar!
Fonte: France Presse via G1/Beit Chabad
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