024-2Hezbollah

(imagem:yalibnan.com/…/9/img/hezbollah%20rally%206.jpg)

Uma visita da BBC Brasil ao bairro de Hamra, um dos mais importantes da capital libanesa e sede de prédios do governo, se transformou em uma volta no tempo. Atravessar o bairro onde fica a sede do governo não foi tarefa difícil. As ruas estavam desertas e somente soldados do Exército se encontravam posicionados para proteger o primeiro-ministro Fouad Siniora.

Mas, quando atravessamos a linha imaginária que separa as duas partes da cidade, logo encontramos militantes do partido xiita Amal (aliado do Hezbollah). O rapaz, portando um fuzil de assalto M16, e seu companheiro, com um lança-granadas e rifle AK-47, olharam com ar desconfiado para o carro em que se encontravam os repórteres, mas nos deixaram passar.

Em cada esquina, rua ou praça havia militantes fortemente armados. Alguns vestidos com roupas civis, os recrutas e menos treinados, outros com roupas militares, os profissionais e bem treinados em campos de treinamento no Líbano.

Síria ou Irã

Havia um combinado de forças – os partidos xiitas Hezbollah e Amal e o partido Nacionalista Social Sírio estavam posicionados demarcando seu novo território com bandeiras de seus partidos. Os combates começaram na quarta-feira com protestos pelo país e se transformaram em confrontos entre governistas e oposição. O combinado da oposição derrotou, em 24 horas, os militantes do movimento sunita Al-Mustaqbal, do líder Saad Hariri.

Mas eles fizeram mais do que isso, eles humilharam Hariri, que dois meses atrás havia declarado em rede nacional que seu movimento estava preparado para lutar se assim quisesse o Hezbollah. No bairro de Hamra, pôsteres e faixas de Hariri (e deu seu pai Rafik Hariri, assassinado em 2005), que antes dominavam, agora deram lugar a símbolos da oposição.

Um militante com nome de Hassan disse que tinha a sensação de estar ocupando um território inimigo, um outro país, um outro mundo. O cenário era de destruição, balas de fuzis espalhadas pelo chão, prédios com buracos causados pelos tiroteios e carros destruídos. Poucos moradores caminhavam pelas ruas, que agora ganharam policiamento das milícias da oposição.

Neutro

O Exército libanês só olhava e, aparentemente, o comando das Forças Armadas libanesas escolheu se manter neutro no conflito. O mesmo Exército está em uma situação delicada e pode ver suas tropas se desintegrarem em grupos sectários leais a seus líderes. Os guerrilheiros patrulhavam cada esquina e alguns até fumavam e apreciavam o Mar Mediterrâneo na avenida à beira-mar.

“Se os americanos querem invadir o Líbano, que venham”, disse outro guerrilheiro, Mahmoud, à BBC Brasil. Mahmoud se referia aos navios de guerra americanos que estavam estacionados nas águas internacionais na costa libanesa. Na volta a Beirute leste, militantes montaram postos de controle para controlar a entrada e saída de veículos. Um homem foi parado em um deles. Em seu pára-brisa, ele ostentava um adesivo com a foto do falecido Hariri.

Fonte: Tariq Saleh para a BBC Brasil

Um câncer dentro do estado

O movimento xiita de oposição Hezbollah (Partido de Deus) é considerado um Estado dentro do Estado libanês. É organização paramilitar solidamente equipada, além de ser firme aliado do Irã e da Síria no Oriente Médio, que aspira a um amplo apoio popular.

Inimigo declarado de Israel e dos Estados Unidos, que o colocam na lista das “organizações terroristas”, o Hezbollah conta com milhares de combatentes, treinados na luta armada contra Israel, iniciada no Líbano, em 1985.

O Hezbollah, criado por iniciativa dos Guardiões da Revolução iranianos em 1982, em Baalbeck (leste do Líbano), coincidindo com a invasão israelense do território libanês, possui rádio e televisão por satélite (Al Manar) próprios, ambos de muita audiência no mundo árabe, principalmente nos territórios palestinos.

O Hezbollah também é um partido político com representação no parlamento desde 1992. Desde 2005, conta com dois ministros no governo libanês. Este movimento, cujo nome significa “Partido de Deus”, dispõe de uma incalculável quantidade de simpatizantes entre os xiitas, a comunidade majoritária no Líbano, a quem ajuda através de uma rede de serviços sociais. O Irã fornece equipamentos cada vez mais sofisticados para seu braço armado, a Resistência Islâmica.

Seu líder é o chefe da Resistência Islâmica, o xeque Hassan Nasrallah. Segundo a revista semanal britânica Jane’s Defence Weekly, especializada em temas militares, o Hezbollah possui entre 10.000 e 15.000 mísseis e foguetes, incluindo mísseis com capacidade de alcançar Tel Aviv.

Os combatentes do Hezbollah se escondem nas montanhas da fronteira israelense-libanesa e são dificilmente localizáveis. O quartel-general político-militar da organização se encontra nos subúrbios do sul de Beirute.

O Hezbollah afirma ter desempenhado um papel decisivo na “Libertação do Sul do Líbano”, evacuado unilateralmente em maio de 2000 pelo exército israelense, depois de 22 anos de ocupação.

Durante esta ocupação, os combatentes do Hezbollah provocaram grandes perdas ao exército israelense e aterrorizaram com seus foguetes os habitantes do norte de Israel. Antes de deixarem a zona, o exército hebreu tentou em vão aniquilar o Hezbollah em 1993 e em 1996.

Fonte: AFP 

Olhar GlobalO Líbano que já foi um dos mais prósperos países do Oriente Médio e que chegou a ser conhecido como a Suíça do Mediterrâneo, se vê mais uma vez conflitado. Os radicais xiitas se apropriaram de boa parte do país, e assim o fazem  para atuar como cabeça-de-ponte em ataques ao Estado de Israel. É este o atual e triste retrato de uma nação de tradição pacífica e empreendedora.

 

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