023|Israel aos 60 anos: entre o júbilo e o pessimismo
(imagem: http://www.jjphoto.co.za/israel6.jpg)
Sessenta anos de Israel: israelenses e palestinos detêm-se por algumas horas ou dias para lembrar o ano de 1948, quando tudo começou. E mais uma vez a data é ocasião, para um lado, de festejar e demonstrar força, e, para o outro, de tristeza, luto e sensação de inferioridade.
Tanto mais espantoso é que a reflexão se manifeste agora também pelo lado israelense-judaico. Há alguns anos teria sido impensável o que o diário Haaretz publicou sobre o jubileu: “60 anos de nakba, 60 anos de nada”.
Nakba (catástrofe) – esta é a expressão usada pelos palestinos para denominar a data da proclamação de Israel. Naturalmente que o autor do texto não considera a fundação de Israel uma catástrofe, mas sim o que aconteceu desde aquela época. E também o que deixou de acontecer: o fato de não se ter alcançado a paz.
No último grande jubileu, há dez anos, ainda se estava otimista e se acreditava que o Acordo de Oslo poderia levar a alguma coisa. Mas isso deixou de existir há tempos. E poucos ainda acreditam no êxito das tentativas de George W. Bush de selar a paz no Oriente Médio antes do fim de seu mandato.
Oitenta por cento dos israelenses não acreditam nisso. Entre os palestinos, a porcentagem deve ser maior ainda. Este pessimismo minimiza a história de sucesso que Israel representa em tantas outras áreas: o Estado judaico não só se tornou nova pátria para centenas de milhares de sobreviventes do Holocausto, mas também se desenvolveu em um país moderno e progressista: apesar de todas as bizarrices sociopolíticas, é uma democracia viva, o país líder na região nos setores da ciência e da medicina, tem um bom desempenho econômico e seu exército é – ainda – o mais forte.
De que servem todos estes avanços se falta a paz, que seria a precondição para finalmente poder gozar tudo isso? Os 60 anos da história de Israel estão repletos de chances perdidas na busca pela paz. Chances estas perdidas por ambos os lados. Assim como os palestinos – e com eles o mundo árabe –, que por tempo demais rejeitaram qualquer idéia de paz e reconhecimento, também todos os governos israelenses preferiram confiar na força militar em vez de apostar na diplomacia e na disposição de fazer concessões.
Em Israel costuma-se freqüentemente lembrar os “três nãos” dos árabes após a Guerra dos Seis Dias: “não” às negociações com Israel, “não” ao reconhecimento de Israel, “não” à paz com Israel.
Mas também Israel tem uma longa lista de “nãos”: por muito tempo não se quis reconhecer os palestinos como um povo. Depois a idéia de um Estado palestino seria rejeitada.
Hoje, os principais tabus para Israel são a questão do retorno dos refugiados e um consenso sobre Jerusalém. Isto para citar apenas os “nãos” mais importantes. Outra “catástrofe” para ambos os lados: eles estão constantemente tratando de fazer voltar a roda da história.(rw)
Fonte: Peter Philipp é chefe da equipe de correspondentes da Deutsche Welle e especialista em Oriente Médio.
A história de um conflito
Ben Gurion ao proclamar o novo Estado judeu em 1948
No dia 14 de maio de 1948, os líderes dos habitantes judeus da Palestina se reuniram no museu da ainda jovem cidade de Tel Aviv, a fim de tornar realidade o sonho que os imigrantes judeus tinham alimentado nas décadas anteriores: criar um Estado judeu nos moldes propagados pelo pai do sionismo político, Theodor Herzl.
O momento havia chegado: poucas horas antes de terminar o mandato britânico na Palestina e do alto-comissário deixar a região, David Ben-Gurion anunciou a criação do Estado de Israel.
Mas os israelenses logo perceberam que o sonho de Israel de fato nada mais foi que a passagem de um pesadelo para outro: da perseguição e destruição na Europa ao conflito latente e à ameaça declarada à sua existência. Durante décadas, o Oriente Médio negou-se a aceitar a existência e o direito de existência de Israel, cujo dia de independência é visto até hoje como nakba, termo árabe que denomina catástrofe.
Granadas pós-júbilo
Em poucas horas, a felicidade com o Estado próprio foi silenciada pela explosão de bombas e granadas, e Israel se viu diante de sua primeira guerra. Os membros da recém-fundada Liga dos Países Árabes esperavam poder exterminar o que, a seu ver, havia sido causado pelo Ocidente: pelos britânicos através da Declaração de Balfour de 1917, que assegurava apoio à criação de uma pátria judaica; pelas Nações Unidas, através da resolução de 1947 sobre a divisão da Palestina; e principalmente pelos Estados Unidos, que apoiavam ativamente a fundação do país.
Contra todas as expectativas, o plano árabe falhou e Israel pôde até expandir suas fronteiras para além das linhas definidas pela ONU. Mais de 750 mil palestinos foram forçados a deixar sua pátria – por temerem por suas vidas ou por terem sido expulsos. Sessenta anos depois, eles somam 4 milhões de pessoas e continuam sendo o problema central do conflito.
A derrota de 1948 ainda é um tema sensível no mundo árabe, talvez em todo o mundo islâmico, onde o resultado é contestado com promessa de vingança. Incapazes de aceitar a derrota diante do pequeno adversário, transferem a culpa para o Ocidente. Daí surgiu a lenda na qual se apóiam até hoje grupos radicais e demagogos: Israel nada mais seria que um posto avançado do Ocidente antiárabe e antiislâmico na região – tal qual o foram os cruzados.
Interesse comum
Adversários de Israel freqüentemente encontram confirmações para tal tese. Por exemplo em 1956, quando o país tratou de assuntos de interesse comum com franceses e britânicos: os europeus, interessados no Canal de Suez; os israelenses, em garantir a segurança de suas fronteiras com o Egito. Com o conflito entre Ocidente e Oriente de pano de fundo, Egito, Síria e Iraque se aliaram a Moscou, contribuindo para estreitar ainda mais os laços entre os EUA, Israel e países árabes conservadores.
1973: o general Moshe Dayan (e) com Ariel Sharon na Guerra do Yom Kippur
A principal mudança se deu durante a Guerra dos Seis Dias de junho de 1967, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, ignorando as ameaças de Israel, ordenou o fechamento do Estreito de Tiran, justificando assim um ataque preventivo por parte de Israel. Nem a intervenção da Síria e da Jordânia pôde evitar que Israel conquistasse, em apenas seis dias, toda a península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, na Síria.
Com isso, Israel passou a controlar toda a Palestina histórica. Muitos em Israel esperavam um “telefonema de Amã ou do Cairo”, oferecendo a paz em troca da devolução de territórios ocupados. Mas os telefones não tocaram. Em vez disso, a Liga dos Países Árabes declarou em Cartum suas três negativas: não haveria reconhecimento de Israel, nem negociações e muito menos paz com os israelenses.
Paz com o arquiinimigo
Em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, tropas egípcias e sírias causaram grandes estragos em Israel e os árabes conseguiram reinflar sua autoconfiança ferida. Porém, esta guerra não teve um vencedor. A constelação permitiu então ao presidente egípcio Anuar Sadat, que havia se voltado ao Ocidente, lançar uma iniciativa de aproximação que em 1979 levaria à paz de Camp David.
Os palestinos poderiam ter usufruído de tal acordo de paz. No entanto, encorajados pelo mundo árabe, a recusaram. Outros 14 anos se passariam até que Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), sob o comando de Iasser Arafat, assinassem o Acordo de Oslo em 1993, que determinava a retirada das tropas israelenses dos territórios ocupados e a fundação de um Estado palestino. Agora, os principais grupos palestinos estavam dispostos a aceitar a solução de dois Estados recomendada pela ONU em sua partilha 46 anos antes.
O assassinato de Rabin
1993: Rabin, Clinton e Arafat acertam em Washington detalhes do Acordo de Oslo
Mas houve resistência por parte de Israel. Os nacionalistas do partido Likud, liderado por Benjamin Netanyahu, falavam em traição à pátria histórica, pois viam toda a Palestina como “Eretz Israel”, a nação bíblica que lhes pertencia. Eles alertavam contra os perigos que significaria a desistência dos territórios ocupados por Israel. O premiê Itzak Rabin, que assinara o Acordo de Oslo, foi assassinado e, pouco tempo depois, Netanyahu foi eleito. Israel passou a sabotar cada vez mais a implementação dos termos previstos em Oslo.
À crise política em Israel, somou-se a crescente insatisfação entre os palestinos. No outono de 2000, irrompeu um segundo levante. Durante a Intifada de Al Aqsa, como a revolta ficou conhecida, destruiu-se praticamente tudo o que de positivo havia sido obtido nas regiões palestinas desde o Acordo de Oslo.
A Palestina passou novamente de administração autônoma a território ocupado, e Israel, sob o comando de Ariel Sharon, começou a se encapsular através da construção de um controverso muro.
Fim das concessões
Com muito esforço, as negociações foram retomadas após a morte de Arafat – no entanto, sem trazer nenhum resultado. Na Palestina, os adversários da reconciliação voltaram a ganhar influência e, no começo de 2006, os islamistas do Hamas – vencedores das eleições – se recusaram a aceitar a existência de Israel e a reconhecer o Acordo de Oslo.
Especialmente no oeste, os palestinos ficam cada vez mais isolados e Israel encontra um pretexto para não fazer mais concessões. Principalmente na Faixa de Gaza, a situação se assemelha a uma guerra declarada.
Nem a intenção do presidente dos EUA, George W. Bush, de coroar seu último ano de mandato com um acordo de paz no Oriente Médio parece alterar o contexto. Nada indica que isso possa acontecer. Pelo contrário, a situação de palestinos e israelenses é cada vez mais desolada.
Palestinos combatem entre si e, por mais que Israel tenha liberado uma quantia milionária para as comemorações dos 60 anos de sua fundação, a medida é tida internamente como controversa: críticos alertam que, apesar de o ano histórico ter sido declarado pelo governo como Ano da Juventude, mais de um terço dos jovens israelenses vivem abaixo da linha de pobreza – o que certamente não é motivo de comemoração.
Fonte: Peter Philipp para a Deutsche Welle
Ainda cremos na Paz. É possível, mais que isso, é necessária, a coexistência entre o povo hebreu e o palestino. Mesmo que as incertezas pareçam maiores que as conquistas, parabéns Estado de Israel!
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